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sexta-feira, 24 de junho de 2011

"O homem está na cidade
como uma coisa está na outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade

mas variados são os modos
como uma coisa
está em outra:
o homem, por exemplo, não está na cidade
como uma árvore está
em qualquer outra
nem como uma árvore
está em qualquer uma de suas folhas
(mesmo rolando longe dela)
como uma árvore está num livro
quando um vento ali a folheia

a cidade está no homem
mas não da mesma maneira
que um pássaro está numa árvore
não da mesma maneira que um pássaro
(a imagem dele)
está/va na água
e nem da mesma maneira
que o susto do pássaro
está no pássaro que eu escrevo

a cidade está no homem
quase como a árvore voa
no pássaro que a deixa

cada coisa está em outra
de sua própria maneira
e de maneira distinta
de como está em si mesma

a cidade não está no homem
do mesmo modo que em suas
quitandas praças e ruas"

quinta-feira, 17 de março de 2011

Tempo

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já têm a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares

É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado ... para sempre
À margem de nós mesmos


Fernando Pessoa

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Faces



Vi uma face com mil semblantes, e uma face que era só um semblante como se estivesse num molde.
Vi uma face cujo brilho não escondia a fealdade interior e uma face cujo brilho escondia uma beleza ainda mais esplêndida.
Vi uma face velha, enrugada sem rugas, e uma face lisa em que todas as coisas haviam deixado marcas.
Conheço as faces, porque olho através do tecido que meus próprios olhos tecem, e considero a realidade que está por debaixo.

 Khalil Gibran

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Timidez

Por que temes o amor, menina?
Por que sufocar teus abafados sonhos?
Por que te escondes ao chamado da primavera,
não deixando que o coração ouça
alegres cantos de melodias singelas,
que pensavas ter perdido na infância?


Abra o coração
Faz com que ele reflita o céu
mesmo aceitando o sofrimento
e as lágrimas que purificam
enaltecendo, não uma afeição transitória
mas uma amor sem equívoco
Que se pressente em cores
Mesmo de mel e fel mesclados
na promessa e na esperança


José Simão (* 26/03/1914  -  12/11/1996)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mensagem

Por que te torturas?
O dia não foi propício?
A serenidade não te acompanha
e a inquietação obscurece
em nuvens escuras
a matutina luz?


Tranquiliza o espírito
Reveja tranquilo as omissões
e a qualidade  de tua existência


Não deixes que murchem as flores
sem aspirar o seu aroma
Aguarda tranquilo o pequeno milagre da espera


E cada hora que passa
renascerá o seu sorriso


A mágoa se dissolverá no tempo
e o céu estará mais perto de ti


-José Simão- 

Céu espelhado

Sábado, 11 de Setembro de 2010.
Neste dia, uma janela se abriu
Sim, uma janela...
Porque portas abrem-se para se andar
E janelas abrem-se para voar


E neste dia, encontrei-me com mim mesmo
E me vi como nasci... 
Meu íntimo em comunhão com a mãe-natureza
E um sorriso se abriu em meu coração apertado e tão machucado
E me senti vivo
E me senti livre
E meu peito se encheu do ar da vida